David Selznick, produtor de vários filmes de sucesso, inclusive vencedor de dois Oscar® consecutivos por “E o vento levou” (1939) e “Rebecca” (1940), deve estar desesperado onde estiver, com o que está acontecendo com a chamada economia real ao longo dos últimos anos. O que teria haver esse grande produtor de cinema com os acontecimentos que vêm assolando o mundo nos últimos meses? A resposta é simples: Tudo. David Selznick, nos idos de 1939, gastou a fortuna de US$ 4 milhões para contratar o que havia de melhor no cinema americano de então. Atores e atrizes do quilate de Clark Gable, Thomas Mitchell, Vivian Leigh, Olivia de Havilland, além de utilizar todas, simplesmente todas as câmeras Technicolor disponíveis à época.
Utilizando um software disponível na Internet, é possível corrigir esse valor e saber quanto custaria os US$ 4 milhões hoje em dia. Chega-se ao sensacional valor de US$ 60 milhões. Conclusão: com o que se gastou para realizar o maior filme de todos os tempos, em valores atualizados não se contrataria dois atores.
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Outro exemplo esdrúxulo são os salários de jogadores de futebol, por exemplo. Nada contra o jogador, mas seria Robinho um craque do mesmo quilate de Puskas, de Pelé, de Eusébio e de outros que encantaram o futebol mundial décadas atrás? Já se parou para pensar que ele e outros jogadores de mesmo talento ganham a quantia de mais de R$ 1 milhão por mês? E para quê? Jogar futebol. É claro que vendem camisas, fazem propagandas, e ajudam a inflacionar os preços dos produtos, mas será que realmente valem esse preço? A resposta pode ser simplesmente: é o mercado que determina o valor. Muito bem. Joga-se sempre a resposta no mercado.
Essa crise que o mundo está passando se iniciou no mercado hipotecário americano. Novos instrumentos financeiros foram criados, lastreados em dívidas de pagadores duvidosos, bancos de atacado que não respeitam o acordo da Basiléia, agências de risco que não mensuraram ou não quiseram mensurar corretamente o risco dos investimentos, empréstimos sem tolerância mínima de reservas de valor, e enfim, a ganância desenfreada dos capitalistas atrás de seus bônus milionários. Todos esses fatores foram responsáveis, de alguma forma, pela crise que se aproximou. Mas será que apenas o mercado financeiro é o grande e único responsável pelo freio na economia real?
Talvez o problema ocorrido nos mercados financeiros tenha apenas despertado o problema que já seria esperado na economia real. Pagar US$ 5 mil por uma bolsa, apenas devido a sua marca, pagar R$ 1 mil por uma calça jeans ou mais, e como esses, vários exemplos do dia-a-dia. É a união de uma política forte de propaganda, atiçando o desejo das pessoas, convencendo-as que usar uma peça de roupa dessa marca, ou uma peça de roupa de outra marca significa status. Pode até ser, mas que as empresas aproveitaram e se esbaldaram em lucros, realmente o fizeram. Não é também papel de capitalistas selvagens? Não é ganância desenfreada também?
Agora jogam a culpa de tudo no mercado financeiro, acusando os que lá trabalham de especuladores, de jogadores num cassino em que os pobres mortais seriam os únicos prejudicados. Nada disso. O mundo, cada vez mais globalizado, aproveitou-se, cada um de seu modo, da grande época de bonança que se passou. O homo economicus age em todas as áreas da economia. Do dono da banca da esquina ao mais bem sucedido banqueiro ou industrial, todos, sem exceção buscam o lucro. Está errado buscar o lucro? Claro que não. Uma empresa é criada para ganhar dinheiro e crescer.
O capitalismo é formado por ciclos de bonança e crises. Encerrou-se o período de grandes ganhos, e haverá um período de ajustes. Recessão não é bom porque gera queda na produção, redução de riqueza e aumento do desemprego. As empresas reduzem de tamanho e procuram se adaptar a uma nova ordem econômica. Isto passado, novamente haverá crescimento. A difícil mensuração é saber quando o período de ajustes termina e se reinicia outro período de crescimento.
O que é importante saber é que a economia como um todo se inflou. O problema não estava concentrado apenas nos mercados financeiros, como se quer acreditar. É bom saber que as próprias empresas que agem na economia real também estavam se aproveitando desses ganhos. Agora todos terão que sofrer as conseqüências. Que assim seja.
Fortunato Russo consultor,
Mestre em Economia pela FGV-Rio.
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